Qual o valor da sua palavra?

Sep 23, 2017
  • (este post foi publicado origialmente no Medium, em janeiro de 2017)

     

    Frustração. Essa é a palavra que posso usar, sem arrodeios, para definir o que senti quando percebi que precisava rever meus preços. A velha "conversa" de oferta e demanda, afinal, não é só uma conversa.

    Mas vamos desfiar esta história direitinho.

    Para começar, tem o pudor em relação a ver seu trabalho como produto. Talvez o pessoal que se formou recentemente, quem é redator publicitário e quem estudou jornalismo mas já começou no mercado de trabalho como freelancer não tenha essa dificuldade. Mas ela é incomodamente comum entre jornalistas da minha geração e das anteriores. O problema é que, quando você não tem um departamento comercial nem alguém que pague seu salário, é você que tem que fazer isso. Ou o dinheiro não entra. Ponto. Então, enquanto os veículos de comunicação estão doidos procurando um novo modelo de negócio que funcione para o jornalismo, cá estamos nós fazendo a mesma coisa com nosso serviço, seja lá o que formos escrever.

    "Viemos de uma tradição em que o jornalista podia dar-se ao luxo de se isolar completamente do marketing e dos interesses comerciais da empresa jornalística. Nos sentíamos meio que missionários ou semideuses que estávamos aqui para salvar o mundo, certos de que alguém arranjaria o dinheiro para pagar nossos salários e manter nossas empresas empregadoras vivas. Quanto mais longe desta gente do dinheiro (do marketing e do comercial), melhor. Isso acabou." O ensinamento precioso é de Rosental Calmon Alves, diretor do Knight Center for Journalism in the Americas, em entrevista ao Meio &Mensagem.

    Então, processando-se esta impositiva verdade, vem a tal pre-ci-fi-ca-ção. Já não é fácil para o setor de serviços como um todo. Pior ainda para quem nunca precisou vender nada — pelo menos não tendo que se preocupar que aquilo é sua única receita. Quer coisa mais desafiadora do que a pergunta “Quanto é?”? Ora, para começar a vender qualquer coisa, você precisa ter um preço. Mas de onde ele vem? Da sua cabeça, da tabela do sindicato, de um colega?

    Li o que pude, mas ainda assim não foi suficiente. Gastei muito mais horas elaborando propostas do que fazendo qualquer outra coisa. Tentei pesquisar o mercado, mas parece que não fui fundo o bastante para descobrir. Claro que a falta de um planejamento mais cuidadoso foi um peso a mais nisso tudo, mas vamos focar no preço neste texto. E tem outra coisa: ainda que haja um bom planejamento, a realidade só se mostra na prática.
    Freelancer e empreendedor não têm 13º salário

    E agora que não tem mais quem lhe garanta isso além de você mesmo?



    DE CONTA EM CONTA
    Adoro Excel — amor antigo, porque ele é incrível — e consegui estimar um valor com referências no meu salário anterior e na tabela do sindicato. Estimei o tempo que eu gastava com apuração e escrita de um texto e cheguei a um preço. Mas, aí, a junção de falta de planejamento adequado (de novo) e a detecção de uma oportunidade de mercado me fez bater em um nicho em ascensão: marketing de conteúdo associado à metodologia inbound, que fez pipocar a demanda por posts para blogs e de gente querendo escrever. São textos para o chamado “topo de funil”, mais genéricos e focados em resolver problemas das pessoas, para atraí-las para a empresa através de conteúdo relevante. Empresas como a RockContent estão crescendo muito fornecendo esses textos.

    O problema é que as empresas desse segmento, em geral, pagam pouco aos redatores — não é à toa que às vezes você tem a impressão de estar lendo a mesma coisa em vários lugares, só escrita de modo diferente. Descobri de duas formas: tendo minhas propostas rejeitadas e finalmente pesquisando mesmo o valor que se paga por isso. Tem texto de 500 palavras (cerca de 3.100 caracteres) pagando R$ 7 a R$ 25 a um redator (não necessariamente cobrando isso do cliente). Mas, enfim, é pouco, ainda que seja necessário levar em conta outros custos (edição, revisão, atendimento ao cliente, etc) e especialmente considerando que na EuEscrevo queremos fornecer textos de qualidade superior. Sendo muito sincera, ainda estou avaliando este produto.

    Será que vale mesmo a pena continuar oferecendo? Ou mantenho no portfólio por ter mercado e, como indicam os consultores, faço ajustes para conseguir fornecê-lo, aumentando a margem de outros serviços e fazendo receita constante com ele com o volume?

    Enquanto isso, ele me fez mergulhar mais nos meus preços de um modo geral e ver que eu podia melhorar na base da cobrança para todos os serviços.

    QUAL O VALOR, AFINAL?
    Leituras, leituras e mais leituras, conversas, pesquisas informais entre os escritores que fazem parte da rede da EuEscrevo, análise de modelos que estão no mercado… tudo tem ajudado, embora ainda não consiga entrar em detalhes que alguns contadores e consultores ensinam, como custo direto e markup. Por outro lado — como até o próprio consultor do Sebrae com quem conversei sobre isso orientou — a lógica de cobrança de preço está muito mais forte no caminho contrário do que se fazia até então: vem do cliente, não de quem vende o produto ou serviço.

    A única certeza que tenho é que nós precisamos ter consciência do custo e do valor do nosso trabalho e fazer esse valor ser visto.

    A consciência é importante até mesmo se for necessário cobrar menos, por razões diversas (desemprego, contas vencendo, filhos precisando, etc), dizendo para o cliente que são condições especiais e temporárias. Neste momento, o que estou buscando é um equilíbrio dos meus custos com a qualidade do meu trabalho e o que o mercado está disposto a pagar por ele.

    CALCULADORA
    Com tudo isso em mãos, criei uma calculadora para incluir minhas despesas (pessoais e relacionadas ao trabalho) e elencar itens básicos em serviços e projetos. Fiz isso para ajudar a dar um norte para mim mesma e para quem está na rede da EuEscrevo e também tem dificuldade de precificar. Vi várias calculadoras desse tipo online, como a da Workana, mas senti falta de alguns detalhes e resolvi criar uma. Por enquanto, ela está em teste com os escritores da EuEscrevo, mas talvez eu a deixe online publicamente se for validada por eles.

    Calculadora de preços para freelancers Calculadora de preços para freelancers da EuEscrevo em testes



    Até agora é isso, pessoal. Queria muito saber a opinião de vocês sobre este assunto tão importante. Quais suas principais dificuldades ao dar um preço? Como vocês têm resolvido?

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